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sábado, 23 de julho de 2011

Mas ahhhhhh, Amy!!!!



E então a diva se foi. Final de vida previsível e absolutamente trágico após uma série extensa de internações e recaídas. No dia 22 de janeiro deste ano, esta coluna prestou seu tributo a um dos maiores talentos da música contemporânea: Amy Winehouse. Em sua primeira (e única) passagem pelo Brasil, Amy amealhou uma penca de fãs, além de aumentar sua infindável coleção de polêmicas. A notícia da sua morte no sábado passado não foi exatamente uma surpresa, mas ainda assim é uma perda irreparável para os que tiveram sabedoria para apreciar o que ela produziu de melhor.
Como todo gênio que se preza, Winehouse teve uma infância problemática, cujas conseqüências a assombrariam durante sua vida breve. A exemplo dos igualmente geniais Billie Holiday, Jim Morrison (líder da banda The Doors), Janis Joplin e Kurt Cobain, Amy falou de si e de suas dores nas canções, e por isso retratou tão bem os conflitos de boa parte de sua geração.
Todos os gênios são controversos, e por razões que desconhecemos, estão interligados. Assim como aconteceu com Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix e Kurt Cobain, Amy morreu aos 27 anos. Como Billie Holiday (também vítima de overdose) ela foi uma das mais comoventes cantoras de sua época, com uma voz etérea, flexível e levemente rouca, expressando sensualidade e profundidade de emoção. Mais de trinta anos separam o auge da carreira de cada uma dessas divas, e a julgar pelo rumo que a musica atual segue, é improvável que a minha geração chegue a conhecer ou reconhecer outro talento dessa magnitude.
Se você não tiver muita paciência e abandonar a leitura dessa coluna pela metade, eu entenderei. Mas não posso deixar de lamentar o que ocorreu com Amy Winehouse. Se você não a conhece ou nunca ouviu uma de suas canções, não é exceção. Infelizmente, a musicalidade desta estrela sempre esteve em segundo plano.
A menina britânica franzina e de voz potente teve um início de carreira meteórico e brilhante. Já muito famosa na Europa, tornou-se popular mundo a fora com a ironia de Rehab (reabilitação em inglês) canção em que ela recusa se tratar do vício do alcoolismo. Estilistas famosos copiaram o seu jeito de vestir e penteado característico, e sua moda bem humorada tomou as ruas. O álbum autobiográfico Back to Black foi um fenômeno mundial. Esse disco, aliás, é uma excelente sugestão. Recomendo que você ouça Back to Black e descubra porque se trata de um álbum histórico. A cada faixa, uma mistura surpreendente de rock, jazz e blues se descortina diante do ouvinte e traz as confissões de uma mulher extremamente amargurada. Uma obra prima da indústria fonográfica recente. Um clássico. Um pedido de socorro.
Amy acabou se perdendo em sua própria grandeza. Bebedeiras, escândalos, divórcios, reconciliações freqüentes e o recorrente abuso das drogas fizeram dela o primeiro grande caso de queda de uma estrela que esta geração presenciou. O talento em estado bruto foi consumido lentamente por uma alma torturada diante dos nossos olhos, tendo por testemunha uma imprensa ávida por mais um escândalo, por outra queda, por mais uma lágrima. Em meio a tanta ironia, a maior delas coube ao destino: deu à menina um sobrenome que – em tradução livre – significa “casa do vinho”. Já nascemos com uma sina. Lembram da Elis com sua vida conturbada e aquele vozeirão que enlouquecia a todos? Ou Cazuza e Renato Russo, que mudaram a forma de expressão de gerações de jovens desse país? A lista de artistas assim é imensa, e passa por Cássia Eller, Elvis Presley, Michael Jackson, Marvin Gaye, Ella Fitzgerald... Todos geniais e atormentados. Mortos por sua total incapacidade de lidar com as próprias dores. Todos com sua sina, irremediavelmente. E mais triste do que ver um jovem e promissor ídolo da música definhar publicamente é perceber que a arte do nosso tempo se alimenta da necrofilia da mídia.
Agradeço sinceramente a você que teve paciência, leu neste texto até aqui e me acompanhou em meu desabafo de fã. Prometo não ser tão chato da próxima vez. Mas não deixe de ouvir pelo menos uma canção dessa artista excepcional.
Até a próxima!