Powered By Blogger

sábado, 7 de maio de 2011

Tomar o quê?!


Imagine a cena: sexta-feira às 6 da tarde, sol a pino, 31 graus e é hora do último ônibus. Pra variar você está atrasado, suado e com um mau-humor do cão. O dedão começa a doer, inchado por passar o dia preso naquele tênis um número menor que o seu pé. E ainda falta uma quadra pra chegar ao bendito terminal! Do nada, surge alguém puxando conversa e você quer mandá-lo pra longe, mas despista com o tradicional “te ligo no fim de semana”, segue correndo e percebe que se esqueceu de passar no banco e que deveria dar um pulinho no supermercado também. Quase na esquina, já dá pra ouvir o barulho do motor dando partida. É só apertar o passo, e nem pensar em olhar pro lado, porque um segundo de distração pode ser fatal. Aliás, lá se vai o busão. E nem adianta gritar, assoviar ou fazer qualquer gesto. O motorista está mais irritado que você, e fez questão de não te ver. Nessa hora, volta aquela pessoa que queria conversa contigo lá atrás, rindo e fazendo graça: “Ué, perdeu o ônibus??” Você sorri e desabafa. Pensa (e fala) um palavrão daqueles que lavam a alma da gente no momento em que sai da nossa boca. Manda o infeliz se danar e elogia o passado obscuro da mãe dele. Então percebe uma senhorinha evangélica com ar de reprovação te olhando feio sentada nos bancos, quase do seu lado, resmungando. Oremos...
Em certas situações, nada melhor para expressar nossas idéias e sentimentos do que um bom palavrão. Sempre admirei a irreverência de Dercy Gonçalves. Há um certo charme em usar palavras de baixo calão com ousadia. Mas é preciso ter limites. É cada vez mais comum termos que agüentar um festival de má educação nos programas de TV com os reality shows. E o resultado disso é que estamos desaprendendo a falar. Você lembra a última vez em que conversou em uma roda de amigos sem tentar ser engraçadinho e apelar pra baixaria? Eu também não. Não vou bancar o puritano aqui, e contrariar algo cada vez mais integrado à nossa vida social. Sou adepto e obviamente usuário da efervescente linguagem popular, mas já viram como fica esquisito ouvir palavrões da boca de uma criança? Tirem um tempo em uma praça ou na saída da escola e observem. São todos filhos de alguma coisa e mandam uns aos outros pra um lugar que não se encontra em nenhum mapa. Vá não sei pra onde! Tome lá! E se vira moda de vez? Encontraríamos apelidos para os órgãos genitais nos receituários médicos, ouviríamos sinônimos da profissão mais antiga do mundo e um ou outro xingamento escapulindo pelos cantos da boca dos apresentadores de telejornais. Que beleza!
Não sou retrógrado. Em pleno século 21 estamos condenados a deixar a caretice de lado. Não podemos mais nos dar ao luxo de sermos hipócritas, e por isso mesmo é necessário que saibamos ter e transmitir boas maneiras a quem nos cerca. Educação e gentileza são imprescindíveis e andam cada vez mais raras. Isso é preocupante. Sei que é difícil resistir ao impulso, mas se não moderarmos nossa linguagem, estamos f... Esqueçam, eu desisto. 

(Originalmente publicado na Edição 409, de 08/01/2011. Reeditado a pedido do autor)


(Jornal Sentinela, de Triunfo/RS - Edição 425, de 30/04/2011)

Nenhum comentário:

Postar um comentário