Hoje em dia ninguém mais tem paciência para escutar os outros ou pra dialogar. Vivemos em tempos bicudos, uma época em que somos pateticamente incapazes de realizar grandes obras, porque estamos voltados às nossas vidinhas monótonas. Mas, em meio à manada, há aqueles que se destacam. São homens e mulheres que se sobressaem em seu meio social devido aos seus atributos intelectuais, ou – o que é mais comum – seus corpos sarados e traseiros perfeitos. Eles têm dominado o mundo, e pouco se pode fazer a esse respeito. Eles se acham. Se amam. Se querem. No dicionário existe uma palavrinha que define essa corja: narcisista. E a gente que ature essas criaturas.
A essa altura você já deve ter me imaginado esbofeteando um desses imbecis, fazendo um discurso na praça de gramofone na mão, recomendando que essa gentalha seja enjaulada e expulsa do nosso convívio. Calma, leitores. Apesar de serem in-su-por-tá-veis, eles tem algo a nos ensinar. Devemos seguir seu exemplo e aprendermos a gostar de tudo em nós, inclusive dos nossos defeitos. Mas cautela é recomendável. Se por culpa da mídia (sempre ela!) vivemos dias em que todos querem ser famosos por qualquer coisa, vale o alerta: excesso de autoconfiança é doença.
Psiquiatras norte-americanos iniciaram no ano passado a estudar casos em que as pessoas se sentem tão privilegiadas, inteligentes e bonitas que ao perceber que esses atributos não são notados por quem as cerca, desenvolvem comportamento maníaco-depressivo. É o narcisismo patológico.
Reza a lenda que Narciso era o rapaz mais belo de toda a Grécia, com beleza igualável e talvez superior a de alguns deuses do Olimpo. Tinha todas as ninfas e sílfides aos seus pés, mas não dava bola pra elas. Não que o negócio dele fosse outro, mas não estava a fim de mulher alguma, fosse mortal ou divina. Não havia no mundo um par ideal, de formosura compatível com a dele. Até que um dia Narciso se surpreendeu com uma visão à beira de um lago. Que pessoa linda! Mas cada vez que se aproximava para paquerar aquela belezinha, ela se escondia. Empolgado, resolveu mergulhar para buscar aquele chuchuzinho tímido que estava lá no fundo. Coitado! Como a perfeição não existe, apesar de lindo, o cara não era muito inteligente. Morreu afogado e não encontrou a gatinha misteriosa por um motivo bem simples. Não havia ninguém à beira do lago. O bocó se apaixonara pelo próprio reflexo!
Eis então, leitores, a chave do nosso blabláblá de hoje. Todo narcisista é burro. Muito burro. Eles não percebem que todos têm suas peculiaridades e são especiais, portanto. Não se comunicam, não se doam, não compartilham nada. Como cantou Caetano Veloso, acham feio tudo que não é espelho. Morrem sós, afogados em suas ilusões tolas.
Anda se achando demais? Manere. Você pode até ter um talento excepcional, a cara do Reynaldo Gianecchini, os músculos do Schwarzenegger e a conta bancária do Bill Gates, ou ter um carro perfeito com um som poderoso, mas seja modesto. Se ame e se valorize, mas seja razoável, por favor.
Já eu que sou lindo, riquíssimo e genial continuo a governar o mundo aqui do meu quarto. Isso é pra quem pode! Só não entendo porque me puseram nessa camisa de força...
(Originalmente publicado no Jornal Sentinela, de Triunfo/RS - Edição 412, de 29/01/2011)


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