Powered By Blogger

terça-feira, 19 de abril de 2011

SALVE AMY!


Esse é o lamento de um fã. Se você não tiver muita paciência e abandonar a leitura dessa coluna pela metade, eu entenderei. Mas não posso deixar de lamentar o que ocorreu com Amy Winehouse em sua recente passagem pelo Brasil. Se você não conhece Amy Winehouse, ou nunca ouviu uma de suas canções, não é exceção. Infelizmente, a musicalidade desta estrela tem estado em segundo plano.
A menina britânica franzina e de voz potente teve um início de carreira meteórico e brilhante. Já muito famosa na Europa, tornou-se popular mundo a fora com a ironia de Rehab (reabilitação em inglês) canção em que ela recusa se tratar do vício do alcoolismo. Estilistas famosos copiaram o seu jeito de vestir e penteado característico, e sua moda tomou as ruas. Você pode não reconhecer o som que ela faz, já viu por aí algumas meninas com um cabelão todo pra cima, imitando a moda dos anos 60. O álbum autobiográfico Back to Black torna-se um fenômeno mundial. Esse disco, aliás, é uma excelente sugestão musical. Recomendo que você ouça Back to Black e descubra porque se trata de um álbum histórico. A cada faixa, uma mistura surpreendente de rock, jazz, R&B e blues se descortina diante do ouvinte e traz confissões de uma mulher extremamente amargurada. Uma obra prima da indústria fonográfica recente. Um clássico. Um pedido de socorro.
E como acontece com todo gênio que se preza, Amy acabou se perdendo em sua própria grandeza. Bebedeiras, escândalos, divórcios e reconciliações freqüentes e o recorrente abuso das drogas fizeram dela o primeiro grande caso de queda de uma estrela que a minha geração presencia. O talento em estado bruto é consumido lentamente por uma alma torturada diante dos nossos olhos, tendo por testemunha uma imprensa ávida por mais um escândalo, por outra queda, por mais uma lágrima. Como aconteceu com as também lendárias Billie Holiday e Ella Fitzgerald em seu tempo, mais uma diva ruma ao ostracismo e a dor do esquecimento. Os shows de Florianópolis, Rio e Recife foram feitos para uma platéia atenta a cada gesto, mas não solidária à estrela. Todos esperavam por aquele tropeço. Todos querem um pedaço da pobre Amy.
Em meio a tanta ironia, a maior delas coube ao destino: deu à menina um sobrenome que – em tradução livre – significa “casa do vinho”. Já nascemos com nossa sina. Lembram da Elis com sua vida conturbada e aquele vozeirão que enlouquecia a todos? Ou Cazuza e Renato Russo, que mudaram a forma de expressão de gerações de jovens desse país? A lista é imensa, Jim Morrison, Cássia Eller, Kurt Cobain... Todos geniais e atormentados. Mortos por sua incapacidade de lidar com as próprias dores. Todos com sua sina, irremediavelmente. E mais triste do que ver um ídolo da música definhar publicamente aos 27 anos é perceber que a arte do nosso tempo se alimenta da necrofilia da mídia e da nossa inércia.
Agradeço sinceramente a você que teve paciência, leu neste texto até aqui e me acompanhou em meu desabafo. Prometo não ser tão chato da próxima vez. Não deixe de ouvir pelo menos uma música dessa artista excepcional.
Até semana que vem!
(Originalmente publicado no Jornal Sentinela, de Triunfo/RS - Edição 411, de 22/01/2011)

Nenhum comentário:

Postar um comentário