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segunda-feira, 11 de abril de 2011

O HOMEM DO BAÚ


 
Ok, eu confesso: sou muito velho. E pra você leitor ter a dimensão exata do que estou falando, afirmo que nunca disse antes tais palavras aos meus amigos mais íntimos, ou nem mesmo à minha família. Essa declaração é única e, portanto, não se repetirá, nem sob tortura. Pertenço a uma geração que assistia ao desenho animado do “Riquinho” e lia as estórias do “Tio Patinhas” com devoção. Cheios da nota, esses personagens viajavam pelo mundo desfrutando uma vida de rei, sem se preocupar com os grandes dilemas da realidade. No meu imaginário infantil, ter dinheiro resolvia todos os problemas e deixava a vida mais alegre.
Mas RICO, de verdade, era o “Homem do Baú”. Aos finais de semana no Domingo no Parque, ele distribuía todos os brinquedos que eu sonhava ter, além de aparelhos de som, TV’s e tênis da moda. E à noite a coisa ficava ainda mais séria. Ele realizava sonhos a granel para aqueles que se prostravam diante das “Portas da Esperança”. E quem mais nesse mundo era capaz de fazer aviõezinhos de dinheiro voar em direção à platéia, que topava submeter-se a qualquer ultraje por uns trocados? Só mesmo um homem R-I-C-O, amigos. Assim mesmo, com letras maiúsculas e dinheiro que não acaba mais. Ao contrário dos outros moleques da minha idade, não pensava em ser policial ou bombeiro. Queria ser o Sílvio Santos, rico e feliz para sempre. Mas como a realidade sempre se impõe, há mais ou menos duas semanas assisti incrédulo a um escândalo sem precedentes na economia deste país. O Grupo Silvio Santos – que, além do SBT agrega também as marcas Jequiti, Liderança Capitalização, e Banco PanAmericano – assumiu com o Fundo Gerador de Crédito uma dívida equivalente a dois BILHÕES de reais. Sabe lá o que é isso? Dois bilhões! Aos trinta e poucos anos de idade (mas, se me perguntarem, responderei que tenho vinte e oito) vi a queda de um titã.
Imagine-se dono de um milhão de reais. Quanta alegria! Vida mansa para você e sua família. É pra dormir e acordar sorrindo. Se dinheiro trouxesse felicidade de fato, uma conta bancária recheada com milhão de reais preencheria a nossa cota de júbilo. Sei que parece impossível, mas estamos falando em uma dívida duas mil vezes maior. Não sei quanto a vocês, mas isso seria o suficiente para me tirar o sono. Para sempre. Pela primeira vez em minha vida, não gostaria de estar na pele desse homem, sequer por um minuto.
Então, todo suado e espremido em um banco no fundo do ônibus das cinco, me veio essa idéia à cabeça: “Quer saber, Sílvio? Mesmo dando nó em pingo d’água pra chegar ileso ao fim do mês, eu ainda posso sentar e dar risada sem motivo ou dormir sossegado à noite”.
De qualquer forma, deixei de invejar o homem do Baú. Na realidade, amigos, ricos somos nós, cheios de contas pra pagar. Acho que além de velho, ando meio louco também.
Até a próxima!

(Originalmente publicado no Jornal Sentinela, de Triunfo/RS - Edição 402, de 20/11/2010)

luciano.magalhaes@brturbo.com.br

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