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terça-feira, 19 de abril de 2011

HAJA! (livremente inspirado na canção de Zélia Duncan)

Difícil conjugar a vida. É complicado engolir tudo o que nos enfiam goela adentro e digerir o que nos torna frágeis. Nossa humanidade é constantemente testada. Haja saco pra ser tudo o que esperam da gente. São tantas as projeções e expectativas que criam a nosso respeito, que às vezes só sabemos quem somos pelo olhar dos outros. Haja calmante pra agüentar tanto desaforo, pra engolir tanto sapo e fugir de tanta pressão. É preciso ser sempre bem educado, aparentando estar alegre. E dane-se o que você realmente sente. Haja instinto pra não deixar de ser você mesmo, pra não se trair, pra acreditar naqueles sonhos que estão escondidos lá no cantinho mais obscuro do nosso coração. E haja fé pra buscar a realização desses sonhos, pra fazê-los acontecer, pra vê-los reais e concretizados. Haja estrada pra percorrer em busca de esperança, de dias melhores, de outras paisagens. O ser humano é nômade por natureza. Descobrir novos caminhos é parte do nosso instinto. Recebemos o dom divino de estar sempre de cabeça erguida, farejando novos ares, saindo da toca. Haja coragem pra levantar todas as manhãs e pra viver sempre o mesmo dia, sem entender o porquê de tanta dor. Pra que tanto tédio, tantas lutas, tantas metas? A cada começo de ano, submetemo-nos a um bombardeio de compromissos, obrigações e objetivos. Fazemos questão de não lembrar que estamos sujeitos a falhas, e que o ano inicia no verão, nos oportunizando viver a alegria e o calor da estação em que a vida se recompõe, com ou sem o nosso consentimento.
Haja poesia pra suportar a crueza da vida. É preciso olhar em volta com muita calma e boa vontade pra perceber o quanto estamos sufocados por algo que não sabemos exatamente o que é. Não fossem os poetas, teríamos sucumbido a essa opressão cujo nome desconhecemos. Em compensação, haja saco pra poesia ruim e pra quem não entende que a magia não reside nas rimas fáceis. A poesia verdadeira está no sorriso de alguém desconhecido, em um por do sol de beleza emudecedora, naquela roda de amigos que conversa animadamente sem perceber o tempo passar. Alguns estudiosos afirmam que poesia é a imitação da vida. Coitados. Estudaram tanto e não perceberam o óbvio. A vida é que tenta em vão imitar e encher-se de poesia.
Haja tempo pra fazer tudo o que devemos. Pra conviver com a família, pra dar atenção aos amigos, pra pagar as contas, suportar a fila do banco, ver um filminho na TV, ou pra dormir a tarde toda. Estamos esquecendo o prazer das coisas simples. Por isso a poesia some das nossas vidas de vez em quando.
E em meio a todo esse estardalhaço, nós humanos andamos tontos, esperando pelo fim de mais um dia, pra aguardar por mais soluções, mais idéias na cabeça. Dormimos e acordamos esperando mais do mesmo. Somos irremediavelmente tolos, e isso é o melhor da vida.
Ainda é verão, que venha a poesia!!!

(Originalmente publicado no Jornal Sentinela, de Triunfo/RS - Edição 413, de 05/02/2011)

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