Se você é desses que acreditam que o mundo vai acabar em 2012, tenho uma péssima notícia: acaba antes. Sou solidário a quem crê que vivemos os últimos dias, e recomendo que você aproveite intensamente e de maneira correta. Dedique-se a amar a humanidade incondicionalmente e relaxe, porque o fim está próximo.
Calma, não sou um profeta do apocalipse, mas não pude evitar chegar a esta conclusão assistindo TV no domingo à tarde. Eu desafio qualquer ser humano em plena posse de suas faculdades mentais a sobreviver ao massacre da mídia dominical. Começamos por alguns humoristas cuja carreira deveria ter acabado nos anos 90. Se quisermos assistir aos Trapalhões, o melhor é comprar ou alugar um DVD, pois esta releitura forçada tá ruim de engolir. Trocando de canal, temos mulheres semi-nuas. Obaaaa! O problema é que elas estão cobertas com uma meleca estranha, e o close não é necessariamente interessante para quem está em família. Mas a esperança é a última que morre, portanto vamos adiante. E aí tem EliAna Hickmann (juntando as duas se consegue meia apresentadora, é impressionante) entrevistando Alexandre Frota pela enésima vez. Deus, por que não falta luz AGORA?! Mas às quatro tem futebol, então deixa assim, Senhor. Curtir o Brasileirão seria ótimo, se para a grande maioria das emissoras houvesse no campeonato qualquer outro time além do Corinthians. E tome Faustão depois das seis. Eu sei, é preciso ter muita paciência para suportar aquelas atrizesinhas da novela das 5 e meia com complexo de Julia Roberts, ou os lindos bebês norte americanos vomitando a papinha nas vídeo-cacetadas. Não toque no controle remoto, a qualquer instante outras sub-celebridades estarão correndo, saltando e rolando na lama em alguma gincaninha copiada da TV finlandesa ou árabe, sei lá. Im-per-dí-vel. Do Sílvio Santos eu não falo por motivos óbvios (leia a coluna da semana passada, POR FAVOR) e então só resta uma alternativa: desligar essa porcaria.
No único dia em que a maioria dos brasileiros poderia descansar e desfrutar de alguma programação artística e de qualidade, temos isso. Mas não se preocupe, ligue o rádio. Aí é só admirar a profunda criatividade dos nossos compositores ao se referir a cores de calcinha, tamanho de traseiro, tapas na cara, palavras de duplo sentido, proezas sexuais, festas na roça e outros prazeres da vida que nos elevam a alma. E soa a primeira trombeta. Corram!
Querem ajudar a salvar o que resta do mundo, amiguinhos? Leiam. Qualquer livro. Em tempos de internet e informações rápidas que não são confiáveis, o que nos garante sucesso é o CONHECIMENTO, e isso só se adquire lendo. Sem contar que vocês estarão dando um excelente exemplo aos seus filhos ou jovens com quem convivem. Num país onde o salário mínimo gira em torno de quinhentos reais, é um verdadeiro absurdo que um livro custe mais de trinta. Busquem alternativas. A Biblioteca Pública tem ótimas opções gratuitas, e garanto que alguém por lá pode orientá-los neste início de jornada. Sugiro que vocês não se lancem num Machado de Assis assim, de cara, mas enfrentar um Harry Potter da vida ou os vampiros chatinhos de Crepúsculo já está de bom tamanho - só não vale trapacear e ver o filme em vez de concluir o livro. Você verá que a história é outra, mais viva e rica, criada por você.
Não desistam, leitura é exercício. Pode parecer cansativo, mas quando vocês se derem conta, vão estar “viciados” e não se imaginarão sem ler um bom livro por muito tempo. Talvez isso não evite a catástrofe iminente que se aproxima, mas vai aprimorar seu senso crítico e despertar algum bom gosto. Adiaremos o juízo final, se Deus quiser (a não ser que alguém decida ler a recém lançada e impressionante biografia da estrela universitária Geisy Arruda). Agora, se você rejeitar a idéia da leitura e quer continuar a ser uma “besta do Apocalipse” o problema é seu. E esse barulho por acaso, é o da segunda trombeta? Ai, ai, ai...
(Originalmente publicado no Jornal Sentinela, de Triunfo/RS - Edição 403, de 27/11/2010)

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