De tanto detestar esses livros de auto-ajuda, ando com a mania de reproduzi-los em algumas ocasiões. Tá certo, andamos meio perdidos mesmo, e hoje vejo que uma orientação de vez em quando cai bem. Muito do que escrevo aqui é reflexo do que me acontece ou do que habita minha imaginação. Na falta de um bom psicanalista, toda semana compartilho com vocês os meus “fantasmas” e neuroses (disfarçados de ironia), e me alegro em descobrir que nem sempre estou só nessa forma de perceber o mundo. Isso me ajuda a redescobrir o que define minhas ações ou estados de espírito. Muda os meus verbos.
Lá na gramática, verbo é aquela palavra que nomeia ou define uma ação, fenômeno ou estado. Em nossa matriz religiosa, aprendemos que por vontade Divina o Verbo se fez carne. Se vocês observarem, até esse ponto do texto devo ter usado mais de 15 verbos pra tentar expressar uma simples idéia, e ainda estou enrolado. É que filosofar nunca foi o meu forte. Prefiro viajar na maionese, mesmo. Além de me poupar de qualquer compromisso com as grandes verdades da vida, isso me diverte.
O que estou tentando dizer hoje, é que chegamos ao tempo de conjugar os verbos da nossa vida adequadamente. Muitas das nossas frustrações e decepções vêm do fato de não estarmos totalmente preparados para viver aquilo que projetamos. Quer um exemplo? Tenho certeza de que vocês também já disseram algo do tipo: “se tudo der certo, talvez eu faça tal coisa”. Agora vejam a diferença: “é possível que eu faça tal coisa” ou ainda “eu FAREI tal coisa”. Parece uma simples questão gramatical, mas quando nos livramos daquela penca de palavras que rodeiam nossos verbos, adquirimos convicção, certeza. Esses se, talvez e acho que nos impedem de crescer. Vocês já ouviram por aí que a palavra tem poder. Precisamos trazer esse poder pras nossas vidas.
Todos nós temos uma espécie de Gramática íntima: um determinado verbo pode significar algo diferente pra cada um. Alguns nos incomodam mais, outros menos. Alguns nos motivam, outros nos fazem sentir desvalorizados. Proponho que vocês pensem naqueles verbos que precisam ser mais conjugados no seu dia a dia. Substituam eu quero por eu faço, ou eu tenho por eu sou. Sejam vocês a primeira pessoa, pra não se deixar abater por si mesmos. Nada que vocês possuam ou busquem é mais importante do que aquilo que vocês são. E sempre conjuguem AMAR no presente do indicativo, pois como canta Zélia Duncan: “amar é profundo/e nele sempre cabem de vez/todos os verbos do mundo”.
E assim vai pra vocês, leitores, mais uma daquelas insuportáveis pérolas de auto-ajuda. Perdoem-me pela sessão pública de psicanálise, mas minha Gramática interna está em meio a um processo de reforma, e tive que compartilhar algumas das minhas constatações. Essa é a grande vantagem de ter tantos amigos cujo rosto desconheço: fica mais fácil expor o que passa pela minha cabeça. O que me resta é seguir conjugando verbos por aí, e me ofereço pra ouvir as descobertas de vocês, é só entrar em contato. Esse é um exercício saudável, mostra quem realmente somos. Transforma nossa forma de ver a vida, de deixar que ela nos conjugue. Pode parecer cansativo, mas mudar os verbos e sua conjugação em nós é transformar-se constantemente.
Obrigado pela paciência, e tenham uma ótima semana!
Até a próxima.
(Originalmente publicado no Jornal Sentinela, de Triunfo/RS - Edição 422, de 09/04/2011)


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