Antes que o amigo leitor encha sua cabeça de bobagens eu esclareço o título insólito desta coluna: coita, ao contrário do que se pensa, nada tem a ver com o coito (palavrinha cujo significado conhecemos e amamos tanto). Trata-se de um sentimento que habita o inconsciente de todo o ser humano e permanece em todos os atos que praticamos na nossa vida pessoal ou social. Como esta coluna é pretensamente cultural, mais uma vez vamos ao dicionário: “coita: substantivo feminino (do latim coctare). der. regressiva do português antigo coitar. Dor, mágoa,pesar, lamentação”.
Em consideração às 20 semanas em que temos conversado, não deixem de ler esse texto até o final, nem façam cara feia, mas admitam que assim como eu, vocês andam viciados na coita. Não se preocupem, isso faz parte da nossa natureza. Somos um povo passional, amamos um drama. Seja nas novelas ou na vida alheia, ansiamos por saber o que está pegando de desgraça por aí. Por exemplo: todos os dias, assistimos aos telejornais e paramos o que estamos fazendo pra acompanhar a tristeza dos desabrigados pela enchente ou dos agricultores de alguma região do estado que sofrem com a estiagem. Desgraça vende, e na briga pela nossa atenção e audiência, a TV tem apelado cada vez mais, provocando nossa empatia e solidariedade. O problema é que se cria em nosso subconsciente um mecanismo de aflição imediata e a acabamos por nos sentir impotentes.
Se observarmos, não é difícil concluir que moradores de comunidades carentes dominadas pelo tráfico de drogas, que lutam diariamente para sobreviver à truculência da repressão policial e trabalham com honestidade são vencedores. Podemos dizer o mesmo das milhões de famílias deste país que se sustentam com um ou dois salários mínimos, sem deixar de ter esperanças em dias melhores. A própria presença do presidente dos EUA em solo brasileiro acena essa possibilidade de mudança. O Brasil já não é mais o mesmo. Ao assumir uma atitude econômica e social diferenciada, nosso país tem atraído a atenção e olhares do mundo inteiro. Se essa é uma nação de heróis, porque ainda nos vemos como coitados? Creio que um primeiro passo honesto é nos removermos da situação de “coitadismo”. Como disse Barack Obama em seu discurso (pra lá de óbvio) na semana passada em rede nacional de televisão, essa é uma das nações mais corajosas e fortes do mundo.
Então, amigos, esse blá-blá-blá que já se estende por inacreditáveis três parágrafos é um apelo deste colunista pra que você confie no seu taco. Rejeite a coita. Seja mais você, mesmo enfrentando dificuldades. Raciocine comigo: como cidadãos, desempenhamos o papel de eleitores, consumidores, leitores e telespectadores. Temos em nossas mãos a capacidade de transformar e melhorar tudo à nossa volta diariamente. Se você não pode ajudar quem necessita, pelo menos não o veja com olhar lamentador e cheio de pena. Às vezes, um gesto ou palavra de incentivo pode valer muito mais que uma simples doação.
(Originalmente publicado no Jornal Sentinela, de Triunfo/RS - Edição 420, de 26/03/2011)


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