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quarta-feira, 27 de abril de 2011

É URGENTE O AMOR (Eugénio de Andrade)


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Cântico Negro (José Régio)

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
Há, nos olhos meus, ironias e cansaços
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

(...)
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

(...)
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

segunda-feira, 25 de abril de 2011



"Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade depois de muito trabalho." 
(Clarice Lispector)

sábado, 23 de abril de 2011

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Carta ao Messias



Amigo querido, sei que estás muito bem, e que ao ler ou ouvir falar destas linhas que aqui escrevo, notarás que cada palavra vem de um canto do meu coração que nem eu sabia existir. Cara, a coisa tá meio difícil aqui em baixo. Guerras, fome, doenças... E a gente anda meio perdido, sabe? Ansioso, esperando que Tu venhas logo e responda ao nosso clamor. Ainda bem que os feriadões nos ajudam a esfriar a cabeça e curtir novas idéias. O que seria da nossa vida sem essas folguinhas, né? Como meu espaço aqui é curto, e sei que tens muito a ouvir de todo o mundo no dia de hoje, vamos ao que interessa:
Obrigado, Senhor, pelas tardes de sono restauradoras em que telefone, e-mails e MSNs da vida me chamam e eu simplesmente não ouço. Obrigado pela chuva nas manhãs de sábado e pelas tardes ensolaradas de domingo, em que sempre achamos o que fazer – mesmo que seja nada. Agradeço por ter permitido ao homem desfrutar delicioso chocolate, e Te louvo pelos nutricionistas e academias de ginástica também. Senhor, Te dou graças pelos vírus de computador, que nos lembram que as máquinas, apesar de perfeitas e eficientes, ainda precisam de nós para operá-las. Te agradeço pela algazarra das crianças nas calçadas no horário da escola, pelas lojas de R$ 1,99, tão tentadoras e divertidas, e também  pelo “Zorra Total”, que me força a desligar a TV e abrir um bom livro nas noites de sábado.
Obrigado pela música ruim, que alguns carros alardeiam por aí. Ela nos faz perceber o quão apurado anda nosso gosto artístico. Pelas desavenças que reforçam nosso caráter e ética, pela melancolia que nos ensina a valorizar a alegria que se esconde nas coisas simples da vida, e pela fila nos Correios, que me faz curtir um bom bate papo por pelo menos uma hora e conhecer novos amigos toda semana.
Obrigado por esta coluna, que me ajuda a compartilhar minha forma esquisita de perceber esse mundo louco e impiedoso em que vivemos e por aqueles que – mesmo discordando do que escrevo – comunicam-se cordialmente comigo e me ajudam a mudar minha perspectiva.
Obrigado pelo teu amor incondicional, que fez com que Tu renunciasses a natureza Divina e viesse ao mundo como um de nós; sofrendo, amando e morrendo como homem, pra entender melhor que ninguém nossas mágoas, dores, angústias e mesquinharias. Obrigado por ressuscitar a cada amanhecer no coração dos que tem fé, e andar por aí, em nosso meio mudando nossas vidas e preenchendo nossos dias com paz, esperança, harmonia e fé. Obrigado pelos pequenos milagres que não percebo e por aqueles que, infelizmente, esqueci de agradecer no momento oportuno.
Me perdoa por Te ver e sentir assim, tão humano, próximo e acessível. É que não consigo crer que o Filho de Deus seja carrancudo e se encarregue de nos castigar por pecados que cometemos por desatenção e ignorância. Por que Tu és filho de Deus, Te vejo como um irmão, que nos orienta, guia, protege e ama. Que nesse domingo o pensamento de todos nós se concentre em Ti, para que finalmente possamos aprender a seguir teu exemplo e doar o melhor de nós pelo próximo. Espero que Teu sacrifício não tenha sido em vão, e que a vida melhore logo.
Diga ao Pai que eu O amo, e volta logo pra dar um jeito nessa bagunça, pois a coisa tá feia. Não esquece de mim, tá? Eu sou meio complicado, mas um dia me endireito... Amém!

(Originalmente publicado no Jornal Sentinela, de Triunfo/RS - Edição 424, de 23/04/2011)

EU TENHO HORROR A POBRE!



O amigo leitor vai me desculpar pelo excesso de franqueza, mas pobre é dose. Pouca coisa consegue ser mais repulsiva e desanimadora do que começar o dia enfrentando a pobreza, que insiste em se esfregar na nossa cara.
O grande problema é que esses pobres não reconhecem o seu lugar. Insistem em circular entre nós como se fossem gente, e se infiltram na nossa sociedade ocupando alguns cargos essenciais e importantes.
Basta você interromper sua leitura, erguer a cabeça agora e dar uma olhada a sua volta pra constatar o óbvio: estamos cercados de pobres, e pouco se pode fazer a respeito. Eles tomaram conta de tudo: do futebol às artes, da política à praça aqui do Centro.
Observe. Pobres são os bestas que vivem bajulando aqueles que eles julgam ser mais importantes, são aqueles que preferem ter algo a ser alguém, são aqueles que desprezam os outros por pensarem diferente ou ter menos dinheiro. Pensaram que eu estou falando na condição social? Não amigos, os verdadeiros pobres são os POBRES DE ESPÍRITO.
Agora que eu me fiz entender, vocês vão ter que concordar comigo. São criaturas nojentas. Aposto que você já se deparou com um deles espezinhando alguém por ter um carro mais barato, por não usar roupas de grife, por não ser amigo do filho do Fulano, por morar no 2º, 3º ou 4º distrito, ou ainda pela cor da pele. Eles estão aí, rindo de nós que ainda tentamos viver em um mundo e uma comunidade justa, livre de preconceitos. São pessoas como o tal Deputado Bolsonaro (aquele do CQC) que nos fizeram abrir os olhos. POBRE!!! MISERÁVEL!! Esse coitado, por mais dinheiro que um parlamentar possa amealhar por meios lícitos e ilícitos, ainda está abaixo da linha da pobreza. E pode ter seguidores preconceituosos, ignorantes e acéfalos aqui mesmo em Triunfo.
O que me assusta é que a pobreza de espírito é contagiante. A frase que dá título a essa coluna é do inesquecível Caco Antibes, personagem de Miguel Falabella no extinto Sai de Baixo. Caco era racista, elitista, desonesto e desagradável, mas seu bordão tomou conta do país. E o pior de tudo, é que pobres de grana a-ma-vam o que ele dizia, e os pobres de espírito saíram por aí repetindo as barbaridades que ouviram na TV, dando a elas o peso de verdade indiscutível. Em conseqüência disso, o preconceito social disfarçado de senso de humor se alastrou feito uma epidemia. Esse colunista foi vítima desse mal, disparando preconceito por aí, sem se olhar no espelho. Idiota...
Tenho minhas dúvidas de que a pobreza de espírito seja curável. Numa sociedade cada vez mais materialista, valorizamos quem tem, e não quem faz alguma diferença. Preferimos quem parece ser importante em detrimento daqueles que tem algo realmente relevante a nos oferecer. Pensamos em lucro imediato, em enriquecimento instantâneo, em grana fácil, em largar tudo o que nos importuna pra curtir a vida sem responsabilidade. Somos pobres.
Espero honestamente que um dia possamos nos libertar de alguns desses preconceitos arcaicos que temos. Mas até lá, nos resta investir nas novas gerações para que nossos jovens não julguem pessoas e instituições pela aparência. Mas vocês têm assistido à Malhação ultimamente? Pois é, amigos, estamos perdidos mesmo. POBRES!!!

(Originalmente publicado no Jornal Sentinela, de Triunfo/RS - Edição 423, de 16/04/2011)


PRECISÃO (Clarice Lispector)


O que me tranqüiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.